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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

1, 2, 3, ZAP!


Poesia, música e cinema: assim foi a noite de 8 de outubro de 2009 para cerca de 30 pessoas. O ZAP (Zona Autônoma da Palavra) acontece toda 2ª quinta-feira do mês no Núcleo Bartolomeu, no bairro Pompéia, zona Oeste de São Paulo. O local é freqüentado por músicos, poetas, estudantes, designers e até agentes financeiros. São jovens e adultos apaixonados pela arte.

O lugar é alternativo, com decoração harmoniosa. Entrada pequena, grafites nas paredes internas, poltronas vermelhas, banheiros sem fechadura e a pia é de balde de alumínio. Uma espécie de salão transforma-se em um bar, com mesas e cadeiras de lata. Há uma pik up de DJ e uma banca onde se vende tortas, bolos, pipoca, refrigerante, vinho e cerveja. Na frente uma parede branca, em que o filme é projetado.

O ZAP surgiu em dezembro de 2008, idealizado e organizado por Roberta Estrela D’Alva, a partir de pesquisas sobre saraus, “slam” e “spoken word”. Na edição de outubro, foi exibido o documentário “Freestyle, um estilo de vida”, de Pedro Gomes, que fala sobre a vida e a música de MCs. Após o filme, a DJ Lua Gabanini embalou a noite no ritmo do Hip Hop.

Por volta das 20h30 começou o “Microfone Aberto”, essa é a hora em que qualquer um pode ir até o microfone e recitar, interpretar ou cantar poesia, de sua autoria ou não. Após ser anunciado, o poeta vai até o microfone e é feita a contagem: “1, 2, 3, zap!”, acompanhada com entusiasmo por todos os presentes. Poesia, rap, samba, amores impossíveis, injustiças sociais, caos paulistano: a diversidade de pessoas, temáticas e estilos é marcante. Após cada apresentação, aplausos, mais ou menos empolgados, dependendo da qualidade da atuação.

Gabriel Gonzo, de 30 anos, foi um dos que se apresentou, com uma letra bem elaborada sobre as marginais. Era a primeira vez que ele participava. Bebia cerveja acompanhado de dois amigos, integrantes de sua banda, Maraca Manca. Os três músicos consideram importante a iniciativa de levar a cultura da periferia para um espaço em que ela é valorizada.

Agente financeiro de 42 anos, Ivan – ou MC Brejeiro, como se autodenominou – bebia vinho com mais duas pessoas. Era a segunda vez que participava do ZAP e cantou seu longo rap “Testemunho verás”, conquistando a simpatia da plateia. Após uma hora de apresentações, uma pausa com mais música antes do “Zapslam”.

O “Slam” é uma batalha de poetas. No ZAP, são sorteados cinco jurados em meio ao público, os quais são incumbidos de atribuir notas de zero a dez aos competidores. Os quesitos são: forma, conteúdo e performance. A competição é dividida em três rodadas e o prêmio são livros, revistas, CDs e DVDs. O “zapeão” de outubro foi Emerson, que conseguiu empolgar e emocionar a plateia com sua interpretação.

Núcleo Bartolomeu

Endereço: Rua Dr. Augusto de Miranda, 786, Pompéia, São Paulo, SP

Tel.: 3803-9396

ZAP
2ª quinta-feira do mês
Das 19 h às 23h30
Entrada Franca

Links:
http://www.nucleobartolomeu.com.br/
twitter.com/zapslam
www.zapslam.blogspot.com/

sábado, 11 de julho de 2009

Toca aí!

Duas dicas para enriquecer sua pasta "Minhas Músicas" e tornar a vida mais gostosa

A primeiríssima dica é o delicioso Pelo Sabor do Gesto, novo trabalho de Zélia Duncan. Com a produção dividida entre John Ulhoa e Beto Vilares, esse é, sem dúvidas, o melhor álbum da cantora.
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Depois de seis anos sem lançar álbuns com músicas inéditas, Lenine retornou em 2008
lançando o Labiata, minha segunda dica. A genialidade do músico está presente não apenas nas letras, mas também nos arranjos ousados em todas as 11 faixas do cd.
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Baixem, ouçam e depois me digam o que acharam.
Aguardem novas sugestões!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Luizinho muito além das 7 cordas

Um perfil do maior violonista de 7 cordas do País.

Um sobrado pequeno no bairro Vila Mariana, em São Paulo. Muita gente rindo e falando alto, alguns não são da família. Partituras espalhadas sobre a mesa. Violões no canto. Uma típica casa de artista boêmio. O dono dessa casa é Luiz Araújo Amorim, o Luizinho 7 Cordas.

Não mais alto que 1,70. Calça, camiseta e blusa largas, roupa de ficar em casa mesmo. Tampando a cabeça quase careca, mas esbranquiçada, um boné vermelho parecido com aqueles que se ganham em tempos de eleição. Sem muita timidez, apresenta todos os presentes, não esquecendo papagaio, cachorros ou filhos. Senta-se à mesa e começa a contar a vida com jeito de quem a canta.

Nasceu em 31 de outubro de 1946, Dia das Bruxas, mas Luizinho é brasileiro demais e não cita, não faz brincadeira disso. Ainda aos oito meses de idade mudou-se de sua cidade-natal, Marília, para Santos. Sua infância foi feliz, de moleque do morro que jogava bola. Diferente dos outros garotos tinha só um gosto estranho, de ficar até bem tarde num canto quando o pai levava os amigos pra casa, pra ensaiar.

Seu Bráulio era tocador de cavaquinho e violão num grupo regional bastante conhecido de Santos, o Estrela de Ouro. O menino Luiz passava horas a observar o pai feirante junto daqueles trabalhadores que se reuniam por diversão para tocar sambas e choros. E o gosto dele era tão grande que, aos seis anos, as mãos pequenas já faziam tentativas nas quatro cordas do cavaquinho, o único instrumento que conseguia carregar sendo tão novo.

Aconselhado pelos amigos de grupo, seu Bráulio não deixou mais Luizinho tocar no meio dos rapazes, disse a ele que deveria estudar. Assim o garoto ingressou no conservatório musical. Passou do cavaquinho ao violão. Estudou música erudita, mas nunca deixou de tocar as canções populares com as quais cresceu. Foi ouvindo Maurici Moura no rádio que descobriu o violão de 7 cordas.

Aluno de Dino 7 Cordas, o grande mestre do instrumento no Brasil, Luizinho já sentia-se bem para tocar com o Estrela de Ouro novamente. Não só tocava como corrigia, guiava os rapazes. Surpreendeu-os então com seu Di Giorgio adaptado, era apenas uma corda a mais no violão, mas transformou a música do garoto, mudou os rumos da sua vida. O convívio com os artistas pode ter sido musicalmente benéfico, mas a saúde do já adolescente Luiz não andava bem.

Aos doze anos, com a mesma mão que dedilhava o violão virava garrafas de cachaça. O menino começou a beber por acreditar no que diziam os adultos, que fulano tocava bem porque bebia bastante. Foi inchando, a pele começou a brilhar e, então, o pai percebeu. Levou Luizinho ao médico, que brigou, disse pra ele escolher entre beber e ficar vivo. Ficou com a segunda opção.

Tido como seu sucessor pelo próprio Dino 7 Cordas, Luizinho recebeu por herança o apelido, além do reconhecimento como melhor violonista de 7 cordas do País. Acompanhou artistas consagrados como Alcione, Elizeth Cardoso, Clara Nunes, Demônios da Garoa e Martinho da Vila. Viajou muito, mas só deixou de morar na cidade de Santos em 1997, por causa do apego à mãe.

Apego, aliás, é uma das características mais fortes de Luizinho 7 Cordas. O visível apego ao morro, lugar de efervescência cultural. Apego ao pai, que mesmo aos 63 anos chama de “papai”. Apego ao choro e ao samba de sua época, que o faz criticar Maria Rita e outras “bonitinhas que não são do samba”. Apego à cantora Fabiana Cozza, a qual trata como filha. Apego ao Dino e ao Rafael Rabello, cuja lembrança da morte traz lágrimas aos olhos do chorão. Embarga a voz que não foi feita pra cantar.

O entra e sai na casa de Luizinho 7 Cordas diz muito sobre ele. A porta não fica fechada. Todos que entram são acolhidos calorosamente. Os que saem não dizem “adeus” e sim “até logo”. Quem vê a casa, nota música em cada parede, cada canto. Não é preciso credencial para ouvi-lo, ele simplesmente quer falar, quer tocar. E toca com um prazer, com um olhar tão aconchegante que, diante dele, é possível sentir-se em casa.

domingo, 28 de junho de 2009

O que é que a Pequena Notável tem?

Um metro e cinquenta e dois de altura. Altíssimas sandálias plataforma. Um jeito de revirar as mãos e os olhos. Turbantes. Jóias coloridas. Plumas, brilhos e muitos balangandãs. Assim ficou consagrada a figura da Pequena Notável.
Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em 9 de fevereiro de 1909, na Freguesia da Várzea da Ovelha, no Distrito do Porto, em Portugal. Filha de José Maria Pinto da Cunha e de Maria Emília Miranda da Cunha, veio para o Brasil com ainda oito meses de vida, estabelecendo-se no Rio de Janeiro.
Estudou na Escola Santa Tereza, na Rua da Lapa. Na época o local passava a ser frequentado por artistas, malandros e prostitutas, o que, provavelmente, influenciou o comportamento da cantora. Carmen (que na Europa é apelido comum para mulheres de nome “Maria do Carmo”, o mesmo que “Maria del Camen”) começou a trabalhar cedo, aos quatorze anos, como balconista numa loja de gravatas.
Trabalhou também na loja de modas e confecções “La Femme Chic”, na Rua do Ouvidor. Lá aprendeu a confeccionar chapéus e, às vezes, vendia-os no balcão. Enquanto trabalhava, cantava, à meia-voz, músicas populares. Foi usando chapéu que Carmen Miranda apareceu pela primeira vez na imprensa. Isso aconteceu em 1926, quando ela tinha apenas dezesseis anos. Sua foto foi publicada na sessão de cinema da revista Selecta, como anônima “extra”. A fotografia foi extraída do filme brasileiro A Esposa do Solteiro, de 1925, no qual fez sua primeira participação.
Descoberta pelo baiano Josué de Barros, Carmen gravou três discos antes de obter o sucesso com a música Pra Você Gostar de Mim (Joubert de Carvalho), que mais tarde ficou conhecida como Taí. Lançado em 1930, esse disco vendeu cerca de trinta e cinco mil cópias em apenas um mês, batendo todos os recordes da época.
Na década de 30, Carmen Miranda atuou em diversos filmes brasileiros. Sua primeira participação já consagrada como artista famosa foi em 1932, no documentário O Carnaval Cantado no Rio, que mostra cenas reais do carnaval carioca. No ano seguinte, em A Voz do Carnaval, filme que intercala Carnaval de rua com gravações de estúdio, a cantora interpreta as músicas Moleque Indigesto (Lamartine Babo) e Good-Bye (Assis Valente) nos microfones da Rádio Mayrink Veiga.
Seu primeiro papel efetivo (lembrando que, até então, Carmen só havia feito participações) foi na comédia Estudantes, de 1935, em que interpretava Mimi, a “pequena do rádio”. No mesmo ano estrelou o Alô, Alô, Brasil, cantando a marchinha Primavera no Rio (João de Barro). Em 1936 é lançado o Alô, Alô, Carnaval, cujas interpretações do solo Querido Adão (Benedicto Lacerda/Oswaldo Santiago) e da marcha Cantores de Rádio (A. Ribeiro/Lamartine Babo/Josué de Barros), junto de sua irmã Aurora Miranda, merecem destaque.
Uma das músicas que mais são associadas à Carmen Miranda é o samba O que é que a Baiana Tem? (Dorival Caymmi), o qual foi eternizado no filme Banana da Terra, de 1938. Ao contrário do que se costuma dizer, o estilo espalhafatoso da Pequena Notável não foi definido aos moldes de Hollywood, pois nessa produção Carmen já se mostra da forma como ficou conhecida. O que É que a Baiana Tem? aparece também em seu filme seguinte, Laranja da China, de 1939, última produção cinematográfica nacional com a presença da cantora.
A convite do empresário estadunidense Lee Shubert, Carmen viaja no navio Uruguai rumo aos Estados Unidos no dia 4 de maio de 1939, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. No dia 29 do mesmo mês, estreou no espetáculo Streets of Paris, em Boston, obtendo êxito de público e crítica. Suas apresentações nos teatros norte-americanos ficaram tão famosas que, em março de 1940, apresentou-se para o então presidente dos EUA Franklin Delano Roosevelt, na Casa Branca. Nesse ano gravou as marcas de suas mãos e sapatos na Calçada da Fama, em Los Angeles.
Sua temporada extremamente bem-sucedida rendeu a ela um apelido norte-americano: Brazilian Bombshell. Ainda em 1940, apresentou-se na Urca, Rio de Janeiro. Costuma-se dizer que lá ela foi vaiada, porém isso não aconteceu. A recepção foi apática, sim, isso porque o público era formado por homens do alto escalão do governo Vargas, ligados aos pensamentos nazi-fascistas. Não era de esperar, portanto, que ficassem animados com músicas como South American Way ou que dissessem “good night, people”. Além disso, há boatos de que ela estava resfriada. Dois meses depois Carmen voltou àquele palco com a resposta pronta: a canção Disseram que Eu Voltei Americanizada (Luiz Peixoto/ Vicente Paiva).
Embora a Neighbor Policy de Roosevelt ainda não fosse política de Estado, Carmen Miranda é comumente associada a ela. Dos grandes estúdios, apenas dois fizeram produções segundo o espírito de boa-vizinhança – a FOX e a RKO –, não houve na época uma imposição do governo.
Nos anos que se seguiram, Carmen atuou em treze filmes nos Estados Unidos, sendo que já havia participado de um, em 1940, no qual ela cantava quatro músicas. Nos dois primeiros, That Night in Rio e Week-End in Havana, ela não sabia muito mais que o “my name is” em inglês. Foram onze anos de filmagens quase seguidas e Carmen sempre tendo personagens de destaque, cantando em português, espanhol e inglês. Seu último filme foi o fracassado Scared Stiff. As atuações de Dean Martin e Carmen salvam a produção, mas as cenas da brasileira foram banidas a pedido de Jerry Lewis, que aparece patético na tentativa de imitá-la.
Em paralelo a isso tudo, a cantora apresentava-se nos mais importantes programas de televisão, de rádio, casas noturnas, cassinos e teatros norte-americanos. A rotina árdua de trabalho fez com que a cantora mergulhasse ainda mais no uso de heroína, álcool, estimulantes e barbitúricos, especialmente após casar-se com estadunidense David Sebastian, também alcoólatra e que a fazia trabalhar além da conta para enriquecer.
Em 1948, Carmen Miranda estreou uma temporada no Teatro Palladium, em Londres. Sua contratação era, a princípio, para quatro semanas, mas acabou ficando seis. Em agosto desse ano, perdeu o filho que esperava. Ela era a artista de show mais bem paga dos Estados Unidos e começou sua excursão por vários países da Europa.
Depois de quatorze anos afastada, em 1954 Carmen voltou ao Brasil em breve escala em São Paulo, onde foi muito homenageada. Seu esgotamento nervoso era evidente, mesmo assim, continuou trabalhando. Até que, em 5 de agosto de 1955, aos 46 anos, morreu em sua casa de Beverly Hills, vítima de um colapso cardíaco. O sepultamento de seu corpo cremado reuniu meio milhão de pessoas no Rio de Janeiro. Carmen Miranda, em sua breve e intensa vida, tornou-se um ícone do Brasil, mesmo não tendo nascido aqui.